O Dragão de Guabiruba é uma criatura lendária associada ao município de Guabiruba, em Santa Catarina, Brasil. A lenda surgiu na região montanhosa do bairro Lageado Alto e tornou-se popular a partir de relatos ocorridos em 1982. De acordo com os relatos, a criatura é um animal voador de grande porte, com escamas, coloração marrom e língua vermelha de aproximadamente 20 centímetros, que lembra fogo. Testemunhas afirmam que o dragão teria asas abertas e aparência ameaçadora, causando pânico imediato.
Aparições e relatos
O primeiro relato documentado é do agricultor Pedro Ismanioti, que em 1982 afirmou ter visto a criatura enquanto cortava folhas de caeté para alimentar seus animais. Segundo sua esposa, Laura Ismanioti, Pedro ficou imóvel de medo ao avistar o dragão sobre um galho, quase encostando em sua cabeça. A experiência teria sido tão impactante que Pedro passou a carregar um terço no bolso e rezar diariamente durante um ano. No dia seguinte, acompanhado de um tio, Pedro retornou ao local, mas não teve coragem de se aproximar da grota onde teria visto o dragão. Posteriormente, o local foi convertido em roça de fumo.
Outro morador, Arlindo Lana, também relatou ter avistado a criatura enquanto trabalhava com um trator, descrevendo características semelhantes às de Pedro. Segundo relatos, Arlindo não conhecia a história de Pedro e nunca havia ouvido falar dela antes de sua própria experiência. Os relatos foram publicados pelo jornal O Município em 17 de agosto de 1990 e permanecem como a principal fonte de documentação sobre o dragão.
Reportagem publicada no jornal O Município em 17 de agosto de 1990. Foto: Arquivo O Município
O dragão e a queda de um avião
A lenda também é associada a um acidente aéreo ocorrido em Guabiruba em 1995. Segundo relatos populares, o dragão teria destruído um avião Cessna Caravan da TAM que sobrevoava a região do Aymoré, resultando na morte de duas pessoas. Investigações do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) descartaram a hipótese de falha mecânica, apontando condições climáticas adversas, desvio de rota e inexperiência da tripulação como fatores principais do acidente. Apesar disso, a narrativa do dragão como responsável pelo incidente é frequentemente citada em relatos populares e páginas de internet sobre a lenda.
Impacto cultural e turístico
Quatro décadas após o primeiro relato, a lenda do Dragão de Guabiruba consolidou-se como parte da identidade cultural do município. Inicialmente motivo de chacota entre moradores da região, a narrativa passou por um processo de ressignificação e hoje é reconhecida como elemento de valorização do patrimônio imaterial local.
A partir dos anos 2000, a aceitação da história levou à sua incorporação em iniciativas turísticas, educacionais e empreendimentos comerciais. A Secretaria de Turismo e a Fundação Cultural de Guabiruba passaram a promover a figura do dragão ao lado de outros personagens folclóricos da cidade, como o Pelznickel e a Befana. Totens com imagens alusivas à criatura foram instalados em diferentes pontos da cidade, e um painel grafitado do artista Wilson Neném retrata a lenda na sede da Fundação Cultural.
A história também está presente em atividades escolares, desfiles cívicos e eventos culturais, sendo utilizada como recurso pedagógico e artístico. A Academia de Letras de Guabiruba anunciou a inclusão da lenda no livro comemorativo dos 60 anos do município, reforçando seu valor como patrimônio simbólico.
No setor privado, a lenda inspirou produtos e empreendimentos temáticos. Restaurantes e bares locais oferecem pratos e bebidas que fazem referência ao dragão, como o Dragonbrot vendido no Biergartenplatz. A marca de roupas Use Guaba lançou camisetas e moletons estampados com a criatura, acompanhados de tags explicativos sobre a origem da lenda.
O turismo também se beneficiou diretamente: a Pousada Canto do Dragão, inaugurada em 2021, explora a temática em sua decoração e identidade visual, atraindo visitantes interessados na mitologia local. Outro projeto em andamento, a Montanha Encantada Dragão de Guabiruba, prevê a construção de uma eco estalagem temática com chalés, restaurante panorâmico, labirinto do dragão e trilhas, reforçando o potencial da lenda como atrativo turístico e gerador de renda para a região.
Baegilhong (em coreano: 백일홍, "Vermelho por Cem Dias") também conhecido como o mito da murta-de-cem-dias, é uma lenda tradicional coreana que explica a origem dessa flor, cuja floração prolongada no verão se tornou símbolo de devoção e saudade. De acordo com a lenda, há muito tempo, em uma vila costeira, vivia um terrível imugi— uma serpente marinha monstruosa que exigia sacrifícios humanos para aplacar sua fúria. Em uma prática ritual recorrente, jovens donzelas eram oferecidas ao mar para satisfazer a criatura.
Certo dia, um bravo herói apareceu na vila e se voluntariou para enfrentar o imugi no lugar de uma jovem que estava prestes a ser sacrificada. Antes de partir, ele prometeu à donzela que, caso triunfasse, retornaria com uma bandeira branca; se falhasse e morresse, voltaria com uma bandeira vermelha. A jovem então passou cem dias em oração, esperando por seu retorno.
Ao fim desse período, o navio do herói retornou carregando uma bandeira vermelha. Acreditando que o herói havia morrido, a donzela, desesperada, tirou a própria vida. No entanto, descobriu-se depois que a bandeira originalmente era branca, mas havia sido tingida de vermelho pelo sangue do monstro, morto pelo herói em batalha. Tomada pela tragédia e pela devoção da jovem, a natureza respondeu: de seu túmulo floresceram flores vermelhas intensas, que passaram a desabrochar durante cem dias seguidos — um reflexo das orações da donzela e de seu amor fiel. Essas flores passaram a ser chamadas de baegilhong.
Simbolismo
A lenda de Baegilhong combina diversos motivos típicos dos contos populares, incluindo o sacrifício humano, a derrota de um monstro por um herói masculino, a confusão de cores e a transformação em flor. São raros os casos, na literatura folclórica coreana, em que a donzela sacrificada e resgatada termina morrendo, mas essa lenda enfatiza o amor e a devoção da heroína, representados pelas flores da murta-de-cem-dias, que, ao contrário de outras flores, permanecem floridas por um longo período durante o verão.
fonte:
MYUNG-SUB, C.; JUNG, H.-Y.; KUNGNIP-MINSOK-PANGMULGWAN. Encyclopedia of Korean Folk Literature = Han’guk minsok paekhwa sajŏn 3. Han’guk minsok munhak sajŏn. Seoul: The National Folk Museum Of Korea, 2014.
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Nencatacoa(também conhecido como Nem-catacoa) é uma divindade da mitologia do povo Muisca, uma civilização pré-colombiana que habitava a região do planalto central da atual Colômbia, conhecida como a Savana de Bogotá. Venerado como o deus protetor dos tecelões, artistas e das festividades, sua importância cultural estava diretamente ligada à habilidade artística e aos rituais festivos muiscas.
Nencatacoa era representado como um animal da floresta, geralmente associado à forma de uma raposa ou de um urso, coberto por um manto e decorado com ouro. Segundo o cronista e frade Pedro Simón (1574-1628), esse tipo de figura animal era recorrente nas representações rituais. A forma zoomórfica do deus refletia a íntima relação dos Muiscas com a natureza e a simbologia espiritual dos animais.
Nencatacoa era especialmente associado aos tecelões, profissão de grande importância para os Muiscas. Os tecidos produzidos eram feitos principalmente com algodão e fique, e frequentemente decorados com padrões artísticos. Além disso, o deus também era patrono dos artistas e pintores, protetor das manifestações culturais expressas por meio de cerâmica, escultura, petroglifos e metalurgia de ouro, com desenhos antropomórficos, zoomórficos e ideogramáticos.
Outro aspecto central de Nencatacoa era sua associação às festividades, à dança e à embriaguez ritual. Durante as celebrações, ele era considerado uma presença divina, festejando junto ao povo. O consumo de chicha (uma bebida alcoólica fermentada à base de milho) era uma parte essencial dos ritos em sua homenagem. Relatos indicam que os Muiscas bebiam chicha em ocasiões importantes, como durante a construção de casas (bohíos) e templos, na chegada de novos caciques, bem como nas épocas de plantio e colheita. Essas festas envolviam danças, cantos, música com tambores e flautas, tudo em honra a Nencatacoa.
Devido à sua ligação com o vinho (chicha), a dança e os excessos festivos, Nencatacoa é frequentemente comparado aos deuses Dionisoda mitologia grega e Baco da mitologia romana. Ainda segundo Pedro Simón, quando os Muiscas celebravam ao redor do fogo e sentiam o vento soprar, acreditavam que era um sinal da presença ativa de Nencatacoa na festividade.
Caturix (gaulês, “rei da batalha”) foi um deus da guerra venerado pelos Helvécios, povo celta da região correspondente à atual Suíça. Posteriormente, foi incorporado ao panteão romano como Mars Caturix, uma forma local de Marte. Não há mitos conhecidos associados a essa divindade, mas seu culto foi significativo na Helvécia romana, com templos identificados em Avêntico (atual Avenches) e Nonfoux, além de inscrições votivas em locais como Yverdon. Ao todo, seis inscrições dedicadas a Caturix foram registradas, a maioria na Suíça, com um exemplar isolado em Böckingen, Alemanha, sugerindo que seu culto se difundiu por meio de soldados ou mercadores.
O nome Caturix deriva da raiz gaulesa catu- (“batalha”) e -rix (“rei”), e variações ligadas a ele incluem Caisivus e possivelmente Cicollus. Alguns estudiosos sugerem que Caturix teria sido originalmente um epíteto de Toutatis, outra divindade guerreira celta. A tribo dos Caturiges (“reis da batalha”), que habitava a região alpina da atual França, provavelmente derivava seu nome desse deus. Sua capital, Eburodunum (atual Embrun), compartilha o nome com Eburodunum (Yverdon), indicando possíveis laços culturais ou migratórios entre os Caturiges e os Helvécios.
A Pedra Misteriosa do Lago Winnipesaukee (Lake Winnipesaukee Mystery Stone) é um artefato arqueológico de origem desconhecida, encontrado em 1872 no estado de New Hampshire, Estados Unidos. De formato oval e semelhante a um ovo de ganso, apresenta superfície polida, furos perfurados em ambas as extremidades e diversas gravuras simbólicas. O objeto é considerado um dos achados mais enigmáticos do estado, sendo alvo de diferentes hipóteses sobre sua função e procedência.
Descoberta
O artefato foi encontrado em 1872, quando trabalhadores contratados pelo empresário local Seneca A. Ladd cavavam um buraco para a instalação de um poste de cerca próximo às margens do lago Winnipesaukee. A peça estava a cerca de 1,8 metro de profundidade, envolta em argila.
Após sua descoberta, a revista American Naturalist descreveu-o como “uma notável relíquia indígena”. Documentos e jornais atestam que Ladd manteve o objeto em posse até sua morte em 1892. Em 1927, sua filha, Frances Ladd Coe, doou a pedra à Sociedade Histórica de New Hampshire, em Concord, onde permanece sob custódia. Atualmente, está exposta no Museu de História de New Hampshire.
Características do artefato
A pedra mede aproximadamente 10,2 centímetros de comprimento, 6,4 centímetros de largura, pesa cerca de 510 gramas e possui tonalidade escura. Foi identificada como sendo composta de quartzito ou milonito. Seu formato é semelhante a um ovo de ganso, com superfície polida. O objeto apresenta furos em ambas as extremidades, perfurados de forma reta e regular, sem afunilamento.
As laterais e superfícies da pedra exibem símbolos variados. Entre eles, aparecem setas invertidas, uma lua acompanhada de pontos e uma espiral. Em outra face há a representação de uma espiga de milho com dezessete grãos. Na parte inferior, observa-se um círculo com três figuras, incluindo uma forma semelhante à perna de um cervo e a imagem de um animal de grandes orelhas. Em outra área, há um tipi com quatro hastes, um oval e um rosto humano estilizado, cujo nariz se mantém rente à superfície e cujos lábios formam uma expressão definida.
Teorias sobre a origem
Diversas hipóteses foram propostas para explicar a origem e a função da pedra. Em 1872, o American Naturalist sugeriu que a peça poderia comemorar um tratado entre tribos nativo-americanas. Mais tarde, alguns estudiosos a interpretaram como uma ferramenta antiga de uso ritual ou utilitário. Em 1931, uma carta enviada à Sociedade Histórica de New Hampshire propôs que se tratava de uma “pedra do trovão”, objeto associado a mitos universais de pedras caídas do céu.
Estudos mais recentes levantaram a hipótese de adulteração ou fraude. Em 1994, uma análise oficial indicou que os furos regulares do objeto são compatíveis com tecnologia moderna, o que sugere que tenham sido feitos no século XIX e não em tempos pré-colombianos.
Outras interpretações sugeriram que poderia ter origem celta ou inuíte. Em 2018, o historiador indígena Joe Graveline defendeu a hipótese de que o artefato teria sido uma pedra de nascimento, utilizada por parteiras nativo-americanas para facilitar partos difíceis. Segundo ele, poderia ter sido usada em nascimentos de líderes espirituais ou políticos, além de possivelmente servir como oferenda funerária.
Estado atual
A Pedra Misteriosa de Lake Winnipesaukee permanece sem origem definida. O único consenso entre os especialistas é que foi confeccionada com algum tipo de maquinário. O objeto encontra-se em exposição permanente no Museu de História de New Hampshire, em Concord, apresentado em uma vitrine rodeada de espelhos para permitir a observação de todos os seus detalhes.
Atargatis é uma deusa da mitologia síria, associada à fertilidade, às águas e à proteção das cidades, cujo culto se expandiu para a Mesopotâmia, a Grécia, Roma e outras regiões do Mediterrâneo. Sua denominação original permanece incerta. Nas fontes gregas aparece como Derketo ou Ceto, enquanto em Roma era invocada como Dea Syria (“a Deusa Síria”). Filólogos sugerem que o nome derive de formas aramaicas como 𐡏𐡕𐡓𐡏𐡕𐡄 (ʿAttarʿattā), possivelmente significando “divina Ata”. Outros a relacionam etimologicamente a Ishtare Astarte, antigas deusas mesopotâmicas e fenícias da fertilidade e do amor.
Ao longo da tradição, Atargatis recebeu múltiplos epítetos e variantes: Atarate, Atergatis, Ataryatis, Atharate, Derketo, Tar-Ata e Ata, possivelmente seu nome mais antigo. Em certos cultos tardios, foi também identificada a Afroditesob o epíteto Hagne. Alguns estudiosos sugerem que sua figura resultou da fusão de diferentes deusas do Levante, como Anat, Astarte e Asherah, herdeiras das tradições religiosas de Ugarit na Idade do Bronze.
Iconografia
As representações de Atargatis variavam conforme a região. Em Ashkelon, predominava a forma de sereia, com corpo de peixe e torso humano. Já em Hierápolis, era retratada de forma antropomórfica: entronizada, ladeada por leões, com coroa mural, cetro e fuso — símbolos de soberania, destino e fertilidade. Moedas e relevos a mostram cavalgando leões, coroada com golfinhos ou emergindo das águas, sempre com forte ênfase em sua ligação com o mar e a fecundidade. Seus olhos, muitas vezes incrustados com pedras preciosas, conferiam às imagens aspecto vivo e vigilante.
Segundo o mito sírio, Atargatis teria descido dos céus na forma de um ovo cósmico, do qual emergiu como uma mulher-peixe — união simbólica dos elementos celestes e aquáticos. Por essa narrativa, é considerada a “mãe das sereias”.
Outra tradição conta que, invejada por uma rival, foi amaldiçoada a se apaixonar por um belo mortal, com quem teve uma filha: Semíramis, a futura rainha assíria. Após o nascimento, deixou a criança no deserto para ser alimentada por pombas, suas aves sagradas, e lançou-se em um lago, transformando-se na mãe-peixe onipotente. Em honra a essa metamorfose, os sírios antigos abstinham-se de comer peixes e pombas, consagrando-os como animais invioláveis.
Além de deusa das águas, Atargatis também foi venerada como soberana da vegetação, coroada por muralhas e ladeada por leões; como deusa celeste, cercada de águias; ou como divindade marinha coroada por golfinhos. Alguns mitógrafos a mencionam como consorte do deus Hadad, o senhor das tempestades, reforçando sua ligação com a fertilidade da terra.
O mito de Combabus
O escritor Luciano de Samósata preservou um célebre episódio ligado à fundação do templo de Hierápolis. A rainha assíria Estratonice recebeu em sonho a ordem de reconstruir o santuário de Atargatis. Para acompanhá-la, foi designado o nobre Combabus. Temendo a reputação da rainha, ele castrou-se voluntariamente e guardou seus genitais preservados em mel como prova de castidade.
Quando a rainha, apaixonada, foi dissuadida pela revelação de sua mutilação, rumores de adultério levaram Combabus a julgamento. Ao apresentar a caixa selada ao rei, provou sua inocência. Em seguida, dedicou sua vida à deusa, tornando-se sacerdote e estabelecendo o modelo do clero eunuco que marcaria o culto de Atargatis.
Culto e sacerdócio
Os templos dedicados à Atargatis eram caracterizados por tanques com peixes sagrados e pombais em árvores consagradas. O santuário de Hierápolis (antiga Bambyce) tornou-se um dos mais célebres do Oriente, descrito como magnífico e adornado com ouro, prata e pedras preciosas. Seu sacerdócio era formado por eunucos devotos que, em rituais extáticos, dançavam, tocavam música e se autoflagelavam. O ato de castração, inspirado no exemplo de Combabus, simbolizava a entrega total à deusa.
Fora de Hierápolis, templos foram erguidos em Ashkelon, Edessa, Dura-Europos, Palmira e Petra. Entre os nabateus, Atargatis ocupava posição central, refletindo a importância do princípio feminino em sua religiosidade.
Sincretismo e expansão
Atargatis foi amplamente sincretizada com divindades do mundo mediterrânico, aproximando-se de Afrodite, Cibele, Reiae Hera. Essa flexibilidade permitiu que seu culto florescesse sob o Império Romano, expandindo-se como o da Dea Syria. Sacerdotes itinerantes difundiram sua devoção por diversas províncias, chegando à Sicília, Delos e Roma. Assim, Atargatis consolidou-se não apenas como deusa das águas e da fertilidade, mas também como guardiã universal das cidades, da ordem cósmica e do destino.
fontes:
CHARLES RUSSELL COULTER; TURNER, P. Encyclopedia of ancient deities. Oxford ; Toronto: Oxford University Press, 2001.
MONAGHAN, P. Encyclopedia of goddesses and heroines. Novato, California: New World Library, 2014.
Luideag (em gaélico escocês, "O Trapo" ou "A Mulher Desgrenhada") é uma figura sobrenatural do folclore escocês, descrita como uma aparição feminina misteriosa e sinistra associada à região da Ilha de Skye. Considerada um tipo de athach (espírito ou criatura feérica maligna), ela era frequentemente avistada nas proximidades do Lochan na Dubh Breac ("Lago da Truta Negra"), entre as cidades de Broadford e Sleat.
De acordo com as narrativas tradicionais, a Luideag aparecia à noite, geralmente perto de estradas, sob a forma de uma mulher jovem, mas de aspecto desalinhado, com longos cabelos emaranhados ou um casaco cobrindo a cabeça. Sua presença era silenciosa e inquietante — ela nunca respondia quando abordada, independentemente do idioma (inglês ou gaélico), e desaparecia tão subitamente quanto surgia.
Relatos sugerem que sua aparição era um presságio de má sorte ou morte. Em uma história conhecida, um fiscal de impostos (exciseman) tentou comunicar-se com ela, sem sucesso. Pouco depois, um homem foi encontrado morto no mesmo local, e, após esse incidente, a Luideag nunca mais foi vista.
A Luideag compartilha características com outros seres do folclore gaélico, como as ban-sìth (mulheres-feéricas) ou espíritos ligados a corpos d'água. Alguns estudiosos sugerem que ela pode representar um fantasma de uma mulher que sofreu uma morte trágica, um espírito guardião associado ao lago ou uma manifestação de antigas crenças em criaturas feéricas malignas.
O Dragão de Ipu é uma criatura mítica do folclore brasileiro, associada à região da Bica do Ipu, no município de Ipu, no estado do Ceará. A lenda foi registrada pelo naturalista Antônio Bezerra de Menezes(1841–1921), que a documentou por volta de 1884, contribuindo para a preservação do mito no folclore cearense. Segundo a tradição oral, o dragão habitaria uma extensa caverna nos arredores da bica, guardando um tesouro ancestral trazido por povos vindos da Cordilheira dos Andes.
A aparência do dragão varia conforme as versões da tradição oral. Dizem que sua pele é coberta por escamas amareladas e acinzentadas, semelhantes às rochas de sua gruta, o que lhe permite camuflar-se como um predador. Seus olhos são descritos como globos vermelhos e incandescentes, verdadeiras bolas de fogo que brilham na escuridão e anunciam sua presença. Ele também possui uma mandíbula aterrorizante, capaz de triturar exploradores, e uma língua bifurcada, típica de sua natureza reptiliana. Por fim, diz-se que o dragão emana um calor infernal de seu corpo, solta estrondos pelas narinas e é capaz de afugentar até os mais corajosos aventureiros.
O Tesouro de Ipu
A história mais conhecida associada ao Dragão de Ipu envolve um personagem misterioso, lembrado apenas como “O Holandês”, vinculado à presença neerlandesa no Nordeste brasileiro durante as invasões do século XVII. Segundo a tradição, o estrangeiro adentrou as matas da Serra da Ibiapaba, surpreendendo-se com abismos de pedra e exuberantes cachoeiras até alcançar a caverna onde o dragão habitava. Logo na escuridão, dois globos vermelhos e incandescentes se acenderam: eram os olhos flamejantes da criatura. Diante do tesouro que brilhava sob sua guarda, o monstro abriu lentamente a mandíbula para devorar o explorador.
O holandês, porém, possuía conhecimentos secretos — uns dizem magia pagã, outros acreditam em uma oração de contrição — que fizeram o dragão sucumbir a um sono temporário. Foi assim que ele conseguiu escapar ileso, levando consigo parte do tesouro. Desejando proteção divina para a riqueza conquistada, o homem enterrou o montante em uma praça, diante das primeiras paredes da capela que se tornaria a Igreja de São Sebastião, padroeiro do município de Ipu. Dessa forma, colocou o tesouro sob a guarda celestial do santo.
A cobiça, no entanto, falou mais alto. Dominado pela ambição, o holandês retornou à caverna para tentar obter o restante do ouro e da prata. Lá, encontrou novamente o brilho dos tesouros misturado às labaredas dos olhos do dragão. Nem o calor sufocante da gruta, nem o rugir das narinas, nem o sibilar da língua bifurcada o fizeram recuar. Mas o monstro, desta vez, não foi enganado. Aproveitando-se da fraqueza do aventureiro, devorou-o cruelmente em meio às chamas, selando seu destino trágico.
Décadas mais tarde, o sertanejo João da Costa Alecrim, major do sertão, descobriu e desenterrou o tesouro deixado pelo holandês sob a proteção de São Sebastião. Rapidamente, tornou-se um homem rico. Entretanto, sua fortuna trouxe condenação. Considerado um profanador por ter violado um bem sagrado, passou a ser rejeitado por todos, vivendo como um pária até a morte. Assim, sua história serve como segundo aviso moral da lenda: a riqueza adquirida de forma impura ou sacrílega traz consigo não prosperidade, mas desgraça.