16 de setembro de 2012

Beowulf

 ۞ ADM Sleipnir

Arte de Matias Cabezas Montoya

Beowulf é o protagonista do poema anglo-saxão que leva seu nome, sendo uma das obras mais importantes da literatura em inglês antigo. No poema, ele é apresentado como um herói dos geatas, povo escandinavo geralmente associado ao sul da atual Suécia. Sua fama se baseia principalmente em três combates: contra o monstro Grendel, contra a mãe de Grendel e, já na velhice, contra um dragão que ameaça seu reino.

A narrativa se passa em uma Escandinávia antiga, anterior ao período em que o poema foi registrado por escrito. A primeira parte ocorre na Dinamarca, na corte do rei Hrothgar; a segunda se desenvolve entre os geatas, quando Beowulf já se tornou rei. Embora o cenário seja pagão e heroico, o poema foi preservado em ambiente cristão anglo-saxão, o que explica a presença de referências bíblicas e interpretações morais cristãs ao longo da obra.

Manuscrito e contexto

O poema Beowulf foi escrito em inglês antigo, língua usada na Inglaterra anglo-saxônica antes da conquista normanda de 1066. Ele sobrevive em um único manuscrito medieval, atualmente preservado na British Library, em Londres, com a identificação Cotton MS Vitellius A XV. Esse manuscrito também é conhecido como Nowell Codex, por causa de Laurence Nowell, seu primeiro proprietário registrado no século XVI.

A cópia preservada foi produzida por volta do ano 1000, mas a data exata de composição do poema continua incerta. É possível que partes da história tenham circulado oralmente antes de serem registradas por escrito. O texto combina tradições heroicas germânicas, lembranças de povos escandinavos e uma visão cristã própria do mundo anglo-saxão medieval.

O manuscrito passou posteriormente para a coleção de Sir Robert Cotton e foi danificado em 1731, durante o incêndio da Ashburnham House. Apesar dos danos, o poema permaneceu legível em grande parte e se tornou uma das principais fontes para o estudo da literatura e da cultura anglo-saxônicas.


A corte de Hrothgar e a ameaça de Grendel

A história começa na Dinamarca, governada pelo rei Hrothgar. Depois de alcançar poder e prestígio, Hrothgar manda construir Heorot, um grande salão destinado a banquetes, celebrações e distribuição de presentes aos guerreiros. O salão representa a prosperidade do rei e a força de sua corte.

A alegria de Heorot, porém, desperta o ódio de Grendel, uma criatura monstruosa que vive afastada dos homens, em regiões escuras e pantanosas. O poema associa Grendel à linhagem de Caim, figura bíblica ligada ao primeiro assassinato, reforçando sua condição de ser excluído da comunidade humana e da ordem divina.

Certa noite, Grendel invade Heorot enquanto os guerreiros dormem após a festa. Ele mata trinta homens e leva seus corpos. O ataque dá início a um longo período de medo. Durante doze anos, Grendel continua ameaçando os dinamarqueses, e o grande salão, antes símbolo de alegria e poder, torna-se um lugar evitado.

Arte de Amedeo Mascitti

A chegada de Beowulf

As notícias sobre o sofrimento de Hrothgar chegam à terra dos geatas. Beowulf, conhecido por sua força e por feitos anteriores contra criaturas perigosas, decide atravessar o mar para ajudar o rei dinamarquês. Ele parte com um grupo de companheiros e chega à corte de Hrothgar, onde é recebido com honra. A visita também tem um sentido de retribuição. Hrothgar conhecia a família de Beowulf e, no passado, havia ajudado seu pai. Assim, a viagem do herói não é apenas uma busca por fama, mas também um gesto de lealdade e reconhecimento.

Durante o banquete em Heorot, Beowulf é provocado por Unferth, um guerreiro dinamarquês que questiona sua fama e sua capacidade de enfrentar Grendel. Beowulf responde lembrando seus próprios feitos e afirma que, se Unferth fosse tão valente quanto sugere, o monstro não continuaria aterrorizando os dinamarqueses. 

A luta contra Grendel

Arte de Serban Gabriel

Naquela noite, Beowulf permanece em Heorot à espera de Grendel. Como o monstro não usa armas, o herói decide enfrentá-lo também sem espada. Quando Grendel entra no salão, mata um dos companheiros de Beowulf e tenta atacar o próprio herói. Ao agarrá-lo, porém, percebe que encontrou um adversário mais forte do que qualquer homem que já havia enfrentado.

A luta entre os dois abala o salão. Grendel tenta escapar, mas Beowulf segura seu braço com força. O combate termina quando o membro do monstro é arrancado. Mortalmente ferido, Grendel foge de volta para seu covil, onde morre. O braço decepado é pendurado em Heorot como prova da vitória.

A derrota de Grendel devolve a esperança aos dinamarqueses. Hrothgar recompensa Beowulf com presentes, como era costume na cultura heroica germânica. Heorot volta a ser palco de celebração, e Beowulf é honrado como libertador da corte.

Beowulf ergue sua trompa em admiração ao troféu
ensanguentado pendurado no teto. Arte de Alan Lee (1984)


A vingança da mãe de Grendel

A paz, porém, dura pouco. A mãe de Grendel, ao saber da morte do filho, vai a Heorot durante a noite em busca de vingança. Ela mata Æschere, conselheiro de Hrothgar, e leva consigo o braço de Grendel. 

Hrothgar pede novamente a ajuda de Beowulf. O herói parte com outros guerreiros até o lugar onde a criatura vive. O caminho os leva a uma paisagem sombria, marcada por águas profundas e perigosas. Antes do combate, Unferth entrega a Beowulf sua espada, chamada Hrunting, sinal de que reconhece o valor do herói.

Beowulf mergulha nas águas e é arrastado pela mãe de Grendel até seu covil. Ali, em um espaço subterrâneo onde a água não entra, os dois lutam. Hrunting, apesar de sua fama, não consegue ferir a criatura. Beowulf é derrubado e quase morto, mas sua armadura o protege. Durante a luta, ele percebe uma espada antiga e gigantesca, pesada demais para um homem comum. Com ela, consegue matar a mãe de Grendel. 

Arte de Charles Fisher

Depois da vitória, Beowulf encontra o corpo de Grendel e corta sua cabeça. A lâmina da espada se dissolve ao tocar o sangue do monstro, restando apenas o cabo. Quando retorna à superfície trazendo a cabeça de Grendel e o cabo da arma, seus companheiros o recebem como vencedor. De volta a Heorot, ele é novamente celebrado por Hrothgar. Após esses acontecimentos, Beowulf retorna à terra dos geatas. Com o passar do tempo, torna-se rei de seu povo.


O reinado de Beowulf e o dragão

A última parte do poema ocorre muitos anos depois. Beowulf já governa os geatas há cinquenta anos. Seu reinado é apresentado como longo e próspero, mas a estabilidade do reino é ameaçada quando um antigo tesouro guardado por um dragão é violado.

O conflito começa quando um homem escravizado, fugindo de seu senhor, encontra o esconderijo do tesouro. Para tentar obter perdão, ele retira dali uma taça de ouro. O dragão, que vigiava aquele tesouro havia muito tempo, percebe a falta do objeto e reage com fúria. Durante a noite, passa a sobrevoar as terras dos geatas, cuspindo fogo e destruindo casas.

Mesmo idoso, Beowulf decide enfrentar o dragão pessoalmente. Esse combate tem um peso diferente das lutas de sua juventude. Antes, ele era um guerreiro em busca de honra e reconhecimento; agora, é um rei responsável pela proteção de seu povo. Ele leva alguns homens até o local, mas, diante do perigo, a maioria deles recua.

Arte de Devin Maupin


Wiglaf e a morte do herói

Durante a luta, Beowulf percebe que sua força já não é a mesma. O fogo do dragão atravessa suas defesas, e o combate se torna cada vez mais difícil. Nesse momento, Wiglaf, jovem parente de Beowulf, decide ajudá-lo. Ao contrário dos outros guerreiros, ele permanece ao lado de seu senhor no momento de maior perigo.

Com a ajuda de Wiglaf, Beowulf consegue matar o dragão. A vitória, porém, tem um preço definitivo. O herói é ferido mortalmente. Antes de morrer, pede que Wiglaf lhe mostre o tesouro conquistado, para que possa contemplar aquilo que deixará para seu povo. 

Depois da morte de Beowulf, seu corpo é cremado em uma grande pira funerária. Um túmulo é erguido em um promontório à beira-mar, de modo que possa ser visto pelos navegantes. O poema termina com o lamento dos geatas, que recordam Beowulf como um rei generoso, protetor de seu povo e corajoso diante da morte.


fontes:
✦ Texto revisado Este artigo foi revisado e atualizado pelo Portal dos Mitos em .
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